O Odissi é um estilo de dança re-descoberto no séc.
XX, que como algumas outras danças clássicas da Índia,
moveu-se dos templos para os palcos artísticos. O fato desta
dança ter sobrevivido tantos séculos e ter vitalidade
nos dias de hoje, nos mostra como a natureza humana prossegue presente
nos valores universais através das artes. A dança
Odissi não é uma arte somente para os conhecedores,
mas destinada à todas as pessoas que apreciam, acolhem e
partilham tal riqueza.
Origem do Odissi
Orissa está localizada ao longo da costa
leste da Índia, é o estado dos templos do País.
Com mais de 7000 templos, essa região presenciou o surgimento
e a propagação de inúmeras crenças religiosas
e filosóficas como: Jainismo, Budismo, Hinduísmo,
Tantrismo, Shaktismo, Shaivismo e Vaishnavismo. Os templos de Orissa,
locais de adoração e desenvolvimento artístico
presenciaram o florescimento de muitas artes, entre elas a da dança
Odissi.
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Evidências arqueológicas dessa forma de dança,
datando do século II a.C., foram encontradas nas cavernas
de Udaiyagiri e Khandagiri, próximo a Bhubaneswar, atual
capital de Orissa.
Caverna de Udaiyagiri Bhubaneswar, (Séc.II a.C.) |
O
templo do sol em Konarak é considerado o maior
monumento de Orissa e o mais glorioso arquivo da humanidade
como um todo. O templo com seu santuário, "Deula",
e o espaço para a dança, "Jagamohana",
foi construído como uma majestosa carruagem do deus sol,
Surya, com 24 magníficas rodas, puxada por 7 cavalos.
| Konarak,
o templo do deus sol, Surya.
Bhubaneswar (Séc. XII) |
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| Paredes
de pedra do templo de Konarak |
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Em
frente à carruagem está o espaço destinado
à dança Odissi, o Natamandira. Em suas paredes
de pedra, figuras esculpidas, formam um verdadeiro dicionário
de movimentos dessa elaborada forma de dança.
Em Puri, está um dos mais venerados
templos de toda a Índia, o templo de Jagannath, que significa
"O senhor do Universo". O culto a Jagannath, ajudou
a formar a arte e a cultura de Orissa, e a sua imagem inspiradora
está associada à dança Odissi. |
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| Kelucharam
Mohapatra em reverência a Jagannath |
A dança ritual, era realizada exclusivamente
pelas Maharis , as dançarinas dos templos. Simbolicamente
casadas com Lord Jagannath, as Maharis viviam e dedicavam-se ao
serviço interno dos templos. Foram por muitos séculos,
repositório da arte Odissi, e uma das mais importantes influências
para a evolução da dança contemporânea.
Por
volta do século XVI, devido a várias invasões
estrangeiras no estado de Orissa, e temendo a segurança
das Maharis, o serviço interno dos templos foi interrompido.
Nesta época surge uma casta de meninos que ofereciam-se
a Lord Jagannath, como atendentes femininos. Essa classe de
jovens dançarinos que vestiam-se como meninas, tornou-se
conhecida como Gotipuas. Gotipua quer dizer "menino".
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Haripriya
- a última mahari do templo de Jagannath,
acompanhada pelo guru Kelucharam Mohapatra
no Pakhawaj |
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Pela
primeira vez a dança Odissi veio para fora dos templos
e passou a ser apresentada em praças públicas
e nas cortes reais. |
Meninos
Gotipuas (Delhi 2001) |
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A
tradição Gotipua é a grande responsável
por manter viva essa forma de dança até os dias de
hoje. Ainda é possível encontrar dançarinos
Gotipuas em remotas vilas no interior Orissa. Muitos dos atuais
gurus do estilo Odissi, foram em sua juventude, dançarinos
Gotipuas.

Geeta
Govinda em folha de palmeira, descreve Krishna no
centro com duas Gopis em cada lado |
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Antigos
textos escritos em folhas de palmeira, descrevem o grande
hino que influenciou a dança e música odissi.
Escrito no século XII, pelo gênio criativo Jayadeva,
o Geeta Govinda são poemas de amor, dedicado a Lord
Krishna. A relação entre krishna e Radha, sua
companheira, é interpretada como uma alegoria da aspiração
da alma humana por deus. A intensa paixão, é
o exemplo que Jayadeva utiliza para expressar a complexidade
do amor divino e humano. Numa linguagem apaixonada e sutil,
o Geeta Govinda, tornou-se a base poética para as composições
contemporâneas da dança. |
O
Odissi consolidou-se na forma como o conhecemos hoje, após
a independência da Índia em 1947. Muitos dos
atuais gurus do Odissi, não mediram esforços
para recuperar essa forma de dança, para tanto, foram
amalgamados elementos da tradição Mahari e Gotipua,
bem como informações provenientes das esculturas
templárias, manuscritos em folhas de palmeira e textos
ancestrais.
Fotos:
"A Índia Hindu de Henri Stierlin"
"Avinash Parisha"
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Kelucharam
Mohapatra - arquiteto do repertório contemporâneo
da Dança Odissi, foi dançarino Gotipua
quando criança |
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Técnica
O Odissi é uma das mais antigas e estilizadas forma de
dança da Índia. Extremamente escultural, caracteriza-se
pela harmonia, sutileza e fluidez de movimentos. Compreende basicamente
dois aspectos: NRITTA a dança pura, abstrata,
desprovida de conteúdo literário, enquanto o segundo
- NRITYA, revela-se como dança expressiva, na
qual os gestos das mãos (hastas), somados ao extenso repertório
de expressões faciais e movimentos dos olhos, fundem-se
para comunicar uma vasta gama de temas míticos e de emoções
e estados de alma (bhava) por eles despertados.
Os fundamentos da técnica odissi são explorados
através das duas posições básicas,
CHOWKA e TRIBHANGA, símbolo das energias
masculina e feminina cujo entrelaçamento dá origem
a todas as coreografias.
O aprendizado do odissi inicia com a prática dos passos
básicos estruturados a partir das duas posições
fundamentais, chowka e tribhanga. Nessa prática o estudante
aprende a utilizar os hastas, os movimentos do torso (bhangi),
braços, olhos, cabeça, pescoço, posições
dos pés, bem como o trabalho rítmico deles (tala).
Esses são importantes elementos da técnica que compõe
a dança abstrata (nrtta) e que darão estrutura necessária
para o estudante ingressar no aprendizado das coreografias clássicas
do repertório odissi.
O Abhinaya (dança expressiva), é considerada a “doutrina
da sugestão”. A dramaticidade do corpo, os hastas
e um extenso repertório de expressões faciais, são
utilizados para narrar visualmente um tema mítico. Esta
etapa encerra o estudo avançado, mais importante e significativo
do odissi, onde o dançarino-ator é convidado a transcender
a mera forma e a permitir entrar em contato com a percepção
mais profunda de si mesmo.
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